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ESCRITARIA: espaço de poucas palavras e muitas vontades...
Ensaio: Fernando Pessoa e os 4 elementos

A obra de Pessoa é todo um universo preenchido de personalidades, de angústias, alegrias, de sonhos e vidas. Louco? Talvez sim. Mas, pergunto-me: não seremos todos loucos? Não desejamos tantas vezes o impossível? Não queremos, tantas vezes, não pensar, não desejar ou não sentir? E, noutros momentos, não aspiramos a viver intensamente ou a viver calmamente? Pessoa traduziu o que de mais profundo existe dentro de cada um de nós: o desejo de se ser um pouco de tudo e a possibilidade de, apenas nestes escassos anos de vida que nos foram concedidos, vivermos. E vivermos tudo, de todas as maneiras!
Assim, a produção artística de Pessoa traduz um Universo, constituído pelos quatro elementos primordiais: fogo, terra, ar e água. A cada elemento associamos personalidades, histórias de vida e rostos completamente distintos.

A Fernando Pessoa ortónimo corresponde o elemento Fogo que, de acordo com a crença pagã, é um dos elementos básicos, segundo o qual o Universo foi criado. Este elemento possui um pólo positivo - construtivo, doador de vida, nutriente e preservador - e um negativo - desagregador, decompositor e dissipador. Outra característica deste elemento é a expansão. No ortónimo, encontramos as características associadas ao fogo. Pessoa construiu uma pequena humanidade de “eus”, dando-lhes uma vida, nutrindo cada um de valores distintos e preservando a sua identidade. Além do pólo positivo, Pessoa adquiriu o pólo negativo. A construção de outros “eus” levou-o à desagregação e à decomposição do seu eu interior. A expansão é um fenómeno marcante em Pessoa. Ultrapassou as fronteiras dele mesmo, expandindo-se para além da sua personalidade, encontrando nos outros “eus” peças perdidas do seu eu que teimava em não surgir. As máscaras que vestiu acabaram por deixar cicatrizes no seu rosto. Por último, o Fogo representa a luz da inteligência. O ortónimo é a expressão de uma intelectualização exagerada dos sentimentos, o que lhe trouxe a “dor de pensar” e a incapacidade de sentir simplesmente.

A Ricardo Reis, o epicurista triste, associamos o elemento Ar. Reis tem consciência da efemeridade da vida e da inevitabilidade da morte. Tendo presente essa realidade, parte na busca de filosofias que lhe proporcionem paz, como o epicurismo, estoicismo ou o carpe diem horaciano. Nesta tentativa de moderar o prazer, evitar a dor e atingir a ataraxia surge um”ser aéreo” que tenta encontrar harmonia e equilíbrio. Tal como o Ar, Reis possui um pólo positivo (doador de vida) e um pólo negativo (exterminador). Doa minutos de vida a Fernando Pessoa, na medida em que, atenua a dor de pensar do poeta, sendo Ricardo Reis um refúgio para uma calma que o ortónimo não possui. Por outro lado, extermina a possibilidade de viver. Viver implica ter bons momentos e maus momentos. Amar e sofrer. Reis não concedeu essa possibilidade, temendo o sofrimento que poderia causar a perda de um amor. Pobre Lídia!

A Álvaro de Campos, o filho indisciplinado da sensação, corresponde o elemento Água, que possui características opostas às do Fogo, tais como o frio e a retracção. Este heterónimo possui três fases: decadentismo, futurismo e pessimismo. Esta evolução demarca a perturbação do heterónimo, a sua inconstância, o seu “ondular” na vida. Numa primeira fase, Campos encontra-se cheio de tédio, enjoado da vida e destruído interiormente, restando-lhe apenas “fumar a vida”. A segunda fase demonstra claramente a ligação com a água. Água é vida. Nesta fase, Campos quer viver! Viver intensamente, sentir tudo de todas as maneiras! Aproveitar ao máximo tudo o que a cidade nos traz. Chega ao ponto de desejar possuir essa cidade industrial! Após este sobreaquecimento, Campos, tal como a água, deixa evaporar este desejo de sentir e de viver. Chega à última fase abatido perante a incapacidade de realização dos seus desejos. Sente-se cansado, frustrado, farto do mundo. Tudo se evapora como a água: a sua energia, a sua vivacidade, a sua urgência em viver, em experimentar, em sentir. Campos seguiu o ciclo da água, no entanto, não permitiu o seu recomeço.

A Alberto Caeiro, o poeta metáfora da Natureza, associamos o elemento Terra, que integra em si os outros três elementos: fogo, água e ar. Caeiro é “O Mestre” do ortónimo, de Reis e Campos. É o único que não questiona o mundo. Vê-o tal como é, não tentando encontrar algo mais do que aquilo que é visível. Caeiro é Terra porque se sente em comunhão com ela. É o único que está satisfeito com o mundo onde vive e que sabe viver verdadeiramente.

Por último, surge ainda Fernando Pessoa, ele mesmo. Não há correspondência directa com nenhum elemento, a não ser com uma palavra: humano. Sem intelectualizações, sem alucinações, sem fugas. É o Fernando. O Fernando da Ófelinha. Aquele que escrevia nas cartas “amorzinho”, “Bebé querido”, “minha bonequinha”, “Bebé-menininho”, “minha almofadinha cor-de-rosa para pregar beijos”. Aquele que mandava “um meiguinho chinês” ou “Um quarteirão de milhares de beijos”. Aquele Fernando humano, sem genialidade. Um ser humano que amou como todos um dia amam.

Em suma, o Universo pessoano é muito rico, mesmo abordando apenas três heterónimos e o ortónimo. Fica muito por escrever. Rico também era Pessoa, o homem apaixonado. A sua constelação seria muito mais reduzida e mais pobre se não tivesse tido o dom magnífico de amar e ser amado. Portanto, obrigada, Ofélia Queirós, porque, graças a ti, conhecemos o lado humano de um dos maiores poetas da literatura portuguesa e mundial!

Liliana Marinho, 12º 4A1

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