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DESTAQUE: DIGA, CARO EÇA!

“Não é uma existência, é uma expiação.” Cento e quarenta e seis anos depois, o país continua perdido, o povo continua na miséria e questiona-se ainda o paradeiro “da inteligência e da consciência moral” de Portugal. Assustadoramente atual, a genialidade de Eça reflete-se no caráter intemporal da sua obra, presente tanto em fragmentos das suas crónicas sociais e culturais, como num dos seus mais prestigiados romances: Os Maias. Mais do que um romance, esta crítica de costumes expõe um Portugal incapaz de se regenerar, um Portugal pervertido e dissolvido pela ignorância, futilidade e hipocrisia características da alta sociedade do século XIX.
A adequação da crítica queirosiana ao Portugal do século XXI torna inevitável o reconhecimento de Eça de Queirós como um visionário e como um pensador lúcido e clarividente, e motiva, evidentemente, o traço de um paralelismo entre o contexto social de ambas as épocas e da eventual intemporalidade da sua obra. A verdade é que o Realismo e o Naturalismo procurados por Eça com Os Maias permitem uma crítica inteligível a um conjunto de personagens que, tipificadas através de determinados vícios e atitudes, se transpõem na sociedade portuguesa atual.
Comece-se pelo episódio do Jantar no Hotel Central. Não será difícil encontrar, nos dias de hoje, aclamados membros de altas classes dirigentes do país cujas regalias são provindas da corrupção e da falsidade e que, posto isto, poderão ser considerados Banqueiros Cohen do século vinte e um. Atualmente, é frequente ver, nos órgãos de comunicação social, notícias relacionadas com casos de indivíduos calculistas que retiram proveito do cargo que ocupam em certas instituições, fazendo negócios em benefício próprio. A título de exemplo, é de notar os conhecidos casos do banqueiro Ricardo Salgado, ou, mais recentemente, o de Oliveira e Costa, administrador do BPN, condenado por crimes de falsificação de documentos, branqueamento de capitais e burla e fraude fiscal qualificadas. Dois séculos depois, é ainda possível encontrar um Portugal estagnado e ineficaz no combate à corrupção.
Recordemos, agora, os encontros fortuitos com as mulheres em Sintra e as reuniões de Carlos e da Condessa em casa da titi e também aí chocaremos com a imutabilidade da típica personalidade portuguesa. Talvez a afirmação de Jeroen Dijsselbloem não seja totalmente descabida e despropositada, ainda que tenha um tanto de imponderação e inconveniência perante o nosso país, dadas as funções que desempenha. Talvez não se possa “gastar todo o dinheiro em mulheres e álcool e, depois, pedir ajuda.” Talvez se o país se preocupasse, em primeiro lugar, em educar e reformar mentalidades desinteressadas e ignorantes no que concerne assuntos de interesse nacional, esta ajuda exterior não tivesse sequer de ser uma opção. Talvez se deixássemos de importar “leis, ideias, filosofias, teorias, assuntos, estéticas, ciências, estilo, indústrias, modas, maneiras e pilhérias”, e se abandonássemos parcialmente a vida despreocupada e de folia de que somos, por vezes, acusados, pudéssemos recuperar totalmente a independência e proeminência de Portugal face aos restantes países europeus.
Também o jornalismo corrompido e desprovido de ética retratado n’Os Maias se repete no jornalismo atual. Revistas cor de rosa e jornais sensacionalistas, que promovem a mentira e que servem certos interesses económicos, adequam-se perfeitamente à crítica queirosiana, que aborda um jornalismo de escândalo, parcial e irresponsável.
Note-se, por fim, a crítica feita ao atraso cultural da elite burguesa e da aristocracia lisboeta, no episódio do Sarau do Teatro da Trindade, e a denúncia do cosmopolitismo postiço, presente nas Corridas de Cavalos. A verdade é que, ainda hoje, importamos tradições e culturas estrangeiras e sobrevalorizamos a cultura vazia e descartável global, em detrimento dos valores próprios do país e do talento e arte portugueses. O consumismo desenfreado e o desejo de uniformizar todas as manifestações culturais, imitando forçadamente os comportamentos estrangeiros, levam à decadência e à perda gradual da identidade de um país. Basta refletir um pouco sobre o que acontece, atualmente, em Lisboa e no Porto, com o turismo de massas que conduz à descaracterização destas cidades e daquilo que é, efetivamente, português.
É urgente que se retome uma cultura com significado, de caráter didático, que tenha o propósito, tal como a obra de Eça, de reformar as mentalidades do século vinte e um e de despertar a atenção relativamente à necessidade de emendar alguns comportamentos que caracterizam a sociedade portuguesa desde há dois séculos.
Ou será que é necessário outro Eça de Queirós para abanar consciências?

Maria Teresa Oliveira
11º 1A1


Publicado em: 12/06/2017 05:19:19 Partilhar

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